sábado, 3 de dezembro de 2016

Efemérides

Numa madrugada como a de hoje, há uns trezentos anos, nasci eu. A aparadeira deu-me um pontapé no rabo e dizem-me que berrei.
Quando apareceu a manhã, foi o meu pai a casa do Zé Barbeiro, que vendia marrã. Para festejar a efeméride. 
Passados uns dias abri os olhos e trouxeram-me à rua. Como a minha mãe não tinha leite, nem havia os sucedâneos de hoje, fui mamar ao peito da vizinha, que o tinha disponível e abundante.
Não lembro a que é que me soube. Só depois disso me levaram à janela e vi a encosta, que ainda hoje além está. 
Peregrinei durante trezentos anos por esse mundo de Cristo, e um dia soube o que isso da marrã era. Provei-a num restaurante e não gostei. Não era a do Zé Barbeiro...
Hoje é na Lapa que vivo, é onde espero acabar. E não desejo outra coisa.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Eça

Estes textos são da primeira fase do Eça de Queirós, em que ele ainda não era cônsul em Havana, na Inglaterra e em Paris. Foi nessa circunstância que, em 1869, assistiu com o conde de Resende à inauguração do Canal de Suez, onde conheceu os grandes da Europa. No início de 1870 regressou a Lisboa.
Não se pode dizer que Eça tenha sido o mais fiável observador do Egipto. Adjectivado, impressionista e prolixo, foi o que podia ser.
«(...) Ao fundo, sobre a negra terra de África, erguia-se o Atlas, tão belo, tão forte, tão vivo como nos velhos tempos mitológicos, quando ele sustentava nos ombros gigantescos o céu com todo o seu povo de deuses.
Nada há igual à sensação de se caminhar assim entre arvoredos, vendo sempre reluzir o fino azul da água.
Descansámos um momento num jardim cheio duma doçura infinita. Toda a sorte de árvores, de ramos delgados, se entrelaçam, se prendem e limitam o horizonte, deixando-o entrever apenas, sereno e azulado, para além das suas ramagens. É aquilo, ali, um centro suave, longe do mundo, estreito e ao mesmo tempo ilimitado, onde a vida e a sensação se espiritualizam e se confundem com o alto pensamento vital das coisas. A vida, o ruído, os soldados, os uniformes vermelhos, as trombetas, os véus das mouras - nada ali chega: uma muralha de árvores, de relvas, de plantas, isola aquele lugar de contemplação. (...)».

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ecos

O Carlos Barroco Esperança decidiu editar alguns textos já conhecidos do blogue Ponte Europa. E é uma boa decisão, porque há neles paisagens da guerra colonial, dum passado e duma meninice beirã de que já ninguém se lembra. Com vénia aqui se transcreve parcialmente BANDEIRA & PISTOLEIRO.
"Em Fevereiro de 1970, recém-chegado da guerra colonial, conheci o Sr. Bandeira, por intermédio de amigos oriundos do distrito da Guarda, no café Nova York. Era aí que nos reuníamos ao fim da tarde e após o jantar, em agradável convívio, enquanto ele tentava corrigir a oscilação das mesas e procurava estudar, intento frustrado pela instabilidade emocional.
O Bandeira, eterno aluno da Faculdade de Direito, entrava no café com um Código debaixo do braço, e abanava as mesas disponíveis para verificar se buliam. Percorria o café e desalentado voltava sempre à primeira mesa, para meter cunhas de papel até lhe conferir a firmeza possível. Não se dava por satisfeito mas resignava-se. O estudo é que não rendia, com aquela apoquentação de poder baloiçar a mesa. Há anos que mantinha o ritual e o inofensivo desequilíbrio mental na insistente procura da melhor mesa.
Aos conhecidos dava por conselho que andassem prevenidos com uma pequena esfera para o caso de terem que alugar um quarto ou apartamento, aconselhando-os a fugir de zonas em que o soalho fosse oblíquo, como a esfera comprovaria, rolando.
Um dia o Tó Zé Almeida tinha as pernas cruzadas e movia um pé, enquanto o Bandeira se debruçava sobre um livro na mesa próxima. Num determinado momento levantou-se irado e gritou. - Não se pode estudar aqui! - É comigo? - balbuciou desconfiado o Tó Zé, e o Bandeira disse: - Pois é, não está quieto com o pé! E o Tó Zé assentou os dois pés no chão, para não perturbar o estudo ao frágil aluno de Direito que caminhava para os cinquenta anos.
A conversa foi prosseguindo entre o grupo habitual e mais de uma hora depois o Bandeira repete o desabafo anterior, não se pode estudar aqui, e o Tó Zé a verificar o sítio dos pés e a dizer-lhe , mas eu tenho os pés quietos, e o Bandeira a replicar, mas eu estou sempre à espera de que volte a cruzar as pernas e a abanar o pé! (...)".

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Neblinas

Vejo no Soares dos Reis uma exposição da obra integral de Amadeo de Souza Cardoso, o génio de Amarante, Manhufe. E descubro um paralelo entre Amadeo e a minha Lapa de há cem anos.
Amadeo morreu novíssimo, levado em 18 pela pneumónica. A mesma que levou a Marquinhas do Zé Ribeiro, comerciante de tachas e ferralhas, e segunda mulher do Vitorino, pai dos Crespos todos e seguidor do ramo.
Tudo lhe chegava do Porto, duns grandes armazéns. E quando um dia lá foi a pagamentos, bem a avisaram as sibilas da aldeia:
- Ai, dona Marquinhas, que anda por lá tão ruim a pneumónica!
- Eu dou-lhe com a carteira!
Recheada a tinha ela, mas a pneumónica foi mais despachada. A dona Marquinhas é que nunca mais voltou.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Chopin

Nocturno em dó menor (póstumo). Claudio Arrau.

Morrer de paixão

Era um gato preto longilíneo, sabedor, uma estampa de felino. Vivia com o irmão num terceiro andar. O irmão era mais curto e descuidado, não conhecia requintes de higiene. Ele ensinava-o, lambia-o, cuidava dele.
Os dois corriam em brincadeiras casa fora. E um dia passou a porta da varanda do 3º andar, atravessou a grade sem que ninguém saiba como, esbracejou no ar e estatelou-se na rua sem cair de pé. Acabou a morrer nas mãos da veterinária, todo partido por dentro.
Ao irmão faltou-lhe a companhia, ele compensou-a com uma bulimia sem controle. Engordou desmesuradamente, um rim entrou-lhe em falência, o pâncreas desregulou-se. O gato não vai durar. Nada é próprio dos humanos, que os gatos não conheçam há milénios. Até os males de amor.

sábado, 26 de novembro de 2016

Ode

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra 
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.
[Odes de Ricardo Reis, Ed. Ática, Lisboa]