terça-feira, 27 de junho de 2017

Despersonalização

" E a esse propósito é inevitável citar o flamengo Clenardo que, vindo da Europa do Norte no início do séc. XVI, não podia deixar de se espantar com o panorama peculiar que encontrou nas cidades portuguesas.
"Mal pus os pés em Évora, julguei-me transportado a uma cidade do inferno; por toda a parte topava negros. Os escravos pululam por toda a parte. Todo o serviço é feito por negros e mouros cativos. Portugal está a abarrotar com essa raça de gente. Estou em crer que em Lisboa há mais escravos e escravas do que portugueses livres de condição. (...)
"É incontestável a presença de escravos nos campos de quase todo o país, mas particularmente nos do Alentejo e do Algarve, em tarefas agrícolas ou pastoris. (...)"
" (...) As várias formas de marginalização moral do escravo somavam-se ao processo de despersonalização, que começava pela forma como era nomeado. Os que chegavam de fora recebiam no baptismo um nome cristão, sendo obrigados a abandonar o seu nome original, aquele que os unia à sua cultura ancestral. O que não tem nada de inocente; o processo que podemos chamar de desculturação é uma das componentes da despersonalização. (...)"
"Fugiu a João Cosme Dantas, morador à Cruz dos Quatro Caminhos, um escravo por nome João Rodrigues, rapaz que terá de idade 15 anos, que veio na nau da Índia e dizia que era de Macau. Foi comprado em Moçambique. É espigadote e magro, bem feito e de olhos grandes. (...)"

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Feitiçarias


" (...) Florinda Maria, de origem angolana, farta de trabalhar e de ser surrada pela sua senhora, lembrou-se de fazer um feitiço que aprendera com o pai e com "umas pretas da sua terra". Fez um boneco de trapos negros, espetou-o com alfinetes, atou-o com cordas de viola e meteu-o dentro do colchão da dita sua senhora. Era a forma de lhe "condicionar a vontade, esperando torná-la mais amistosa no relacionamento. (...)
O escravo-copeiro Afonso de Melo valeu-se para isso do feiticeiro José Francisco que, depois de outras soluções sem sucesso lhe forneceu um bocado de um pau que devia mascar de manhã em jejum e depois cuspir no chão, no lugar onde o senhor viesse a pôr o pá esquerdo.
Domingos, escravo de João Costa Silva, recorria a meios mais pesados, tendo conseguido os favores do próprio demónio, com quem ia falar ao Vale de Cavalinhos, clássico lugar de encontro da feitiçaria lisboeta. (...)
A origem das bolsas de mandinga parece ser o território mandinga da Alta Guiné, islamizado no séc. XIII. A islamização, com a consequente valorização da palavra escrita, estará na origem da introdução de pequenos textos de carácter sagrado, escritos em árabe, num tipo de bolsa já antes utilizado como talismã pelas populações locais. (...)
Essa adaptabilidade foi, provavelmente, uma das razões do seu sucesso em Portugal, onde as bolsas de mandinga se tornaram populares não só entre escravos e forros africanos, mas também entre brancos livres. (...).

domingo, 25 de junho de 2017

Ó Peixoto!

A gente sabe que a tua especialidade não é produzir literatura mas antes pedir colo. É que há sempre uns peitos femininos que se deixam comover, porque não sabem do resto.
Ultimamente fizeste umas passagens baixas à Coreia do Norte, e andaste por lá à procura de inspiração. Só tu e o comité central da festa do Avante! Mas não nos contaste nada do que lá se passa. Mormente aquele caso do jovem norte-americano que foi preso (como é que ele se chamava?!), esteve 17 meses no chilindró e acabou por ser libertado e devolvido à América.
Só que, coitado, sofreu tratos tais na cela, que trouxe de lá lesões cerebrais irrecuperáveis, por virtude duns mimos que lhe deram. Morreu pouco depois de chegar à América.
E tu, Peixoto, se calhar morreste-me também. Se fosses à bardamerda já se não perdia tudo!

Mestre

Os computadores e eu
 
"Uma tarde em Marimba, na Baixa do Cassanje, no ano da guerra de 1973, mostrei ao soba Macau (Sebastião José de Mendonça Macau) um boneco da minha filha Zezinha, então bebé, um veado de pano que se puxava um cordelzinho na barriga e soltava uns guinchos rachados. O soba ergueu às copas das mangueiras a bengala do seu poder, largou a fugir aterrado, e eu comecei a rir até que de súbito entendi e o riso se me secou na garganta. Joguei em pânico o tenebroso veado ao chão e desatei a correr atrás do soba pelo capim fora.
Aquele homem velho de infinita sabedoria, capaz de fazer navegar o seu povo incólume entre a tirania da polícia e as exigências do MPLA, percebeu mais depressa que eu a infinita perversidade das máquinas, mesmo as ocultas, nas tripas de algodão de um animalzinho de brincar. (...)
Percebera que as máquinas e os aparelhos nos detestam e que a condição da nossa sobrevivência consiste em nos afastarmos deles, não os ligarmos à corrente, não lermos os manuais de instruções com diagramas explicativos em oito línguas diferentes todas elas incompreensíveis, não cedermos ao desafio de carregarmos em nenhum botão.
No que me diz respeito não sei mexer num único desses símbolos do progresso, do aspirador ao apara-lápis, do micro-ondas ao blequendeker, do vídeo ao saca-rolhas, que levanta a pouco e pouco duas pérfidas asinhas de metal. (...)
Julgo não ter medo da morte, não ter medo do dentista, não ter medo da lepra, não ter medo dos políticos, mas tenho medo dos computadores. (...) Já me engoliram um romance inteiro, já me transformaram capítulos em poesia experimental, já retiraram ossos aos meus parágrafos, reduzindo-os a um puré de adjectivos. Por isso escrevo à mão. (...)
E os computadores imagino-os rugindo numa jaula de circo, sonolentos e de unhas de fora, só possíveis de enfrentar de botas altas, alamares e chicote na mão, obedecendo a contragosto às ordens de quem se aproxima deles, tocando-lhes com um pau para os obrigar à complicada proeza de uma frase escorreita. E nos momentos de inconsciência em que carrego numa tecla a pele escurece-me, os ombros curvam-se-me, a camisa dá lugar a um pano do Congo, os pés descalçam-se-me de meias e sapatos, os ruídos de África inundam a sala, ergo a bengala do meu poder às copas das mangueiras em que os morcegos se penduram todo o dia de cabeça para baixo e largo a fugir, aterrado, capim fora, na direcção do rio onde os crocodilos dançam à flor do lodo, à espera da imprevidência dum cabrito."
[Ninguém escreve uma crónica como o Lobo Antunes. Este campo é dele.]

sábado, 24 de junho de 2017

Tradições



Passou a noite em que os tripeiros se divertem a trocar marteladas na cabeça à custa do S. João, hoje em dia com sotaque chinês.
Mas têm pouca sorte, já que alguém determinou o lógico: proibir o lançamento de balões de mecha a arder, essas bombas voadoras que caem ninguém sabe onde e incendeiam pinhais.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Fugir a salto

Os caçadores de cachalotes, de que extraíam um óleo finíssimo, vinham em tempos da América procurá-los às ilhas dos Açores.
E os pescadores locais não estavam autorizados a entrar nos barcos americanos, nem eles podiam acolhê-los.
Mas havia uma falésia numa ilha, donde os açoreanos saltavam directamente para dentro do barco americano. Foi um arranjo desses que levou uma grande comunidade açoreana para a América.
Os modos mudaram com os tempos. Mas a fala assim ficou.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Capelas

Em entrevista à TSF, Helder Macedo põe os pontos nos is: critica acerbamente a pobre contribuição de Luiz Pacheco para a literatura, esse cultor de excessos variados.  
Deixemos passar as velas votivas da capelinha surrealista!