sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mensário

"O Bartolomeu não sabe explicar por que tomou a decisão de subir ao chiado, naquele dia à tarde. Certo está apenas de já não guardar esperanças no peito, à medida que ia subindo a rua nova do almada. Dormia há três meses nas arcadas do ministério das finanças, que os pombos ainda respeitavam. Esmolava no sul e sueste, quotidianamente posto em risco pelas avalanches de pernas que desaguavam de cacilhas, e aventurava-se a um almoço na económica dos anjos quando as forças lhe deixavam subir a avenida, o que era raro. Nesse dia trepou ao chiado como quem vai de férias.
Olhai as aves do céu, que não semeiam nem colhem! Soletrou o cartaz pendurado ao cimo das escadas da igreja dos mártires, que no íntimo sentiu como sua, porém sem cogitar o milagre que ali estava à espera. Atravessou o guarda-vento, tacteou ao longo da parede e lançou ao dedos à pia de água benta, num gesto que desenterrou duma memória antiga. E foi quando a mão direita lhe transitava, canhestra, entre o pai e o espírito santo, que os olhos se afizeram à obscuridade e decifraram o peixe picotado no lioz da coluna, mesmo por cima do tanque.
Pouco dado a leituras cabalísticas, o bartolomeu ficou surpreendido. Mas logo saltou da surpresa para o espanto, quando viu o peixe desprender-se da  pedra e mergulhar na água benta, num encarpado perfeito.
Arqueou as sobrancelhas, roçou um punho nos olhos, não queria acreditar. Procurou assento num dos bancos corridos, e ali ficou, de queixo nas mãos, enquanto a fresca atmosfera da nave central lhe assentava lentamente na cumeada dos ombros. À saída foi espreitar a concha da água benta. O pequeno dorso do peixe evolucionava lá dentro, a lavrar, cuidadoso, as lodagens do fundo.
Oito dias depois regressou à igreja, e lá encontrou o vulto escuro a remexer as águas. Mas o que via agora eram dois palmos de lombada sólida e carnuda, de barbatana inchada, abrindo as guelras ávidas ao maná da água benta. Logo ali capturou o robalo a mãos ambas, fê-lo desaparecer no bolso e foi tratar do jantar.
No dia seguinte foi à igreja de são roque e saiu-lhe uma carpa enorme. Na sé teve direito a salmão. Nos jerónimos ia-se empanturrando de besugos, de linguados, de azevias. O bartolomeu tem o futuro assegurado. Levará muitos anos a percorrer as pias de água benta de lisboa. Depois há-devir o porto, santarém, a idolátrica braga... E o bartolomeu olhará sem cobiça os pássaros do céu, enquanto for correndo as capelas do minho, à espera duma lampreia.
[O MENSÁRIO DO CORVO, Jorge Carvalheira, 2002]

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Epílogo

"(...) O entulho resultante do projecto de demolição acabou como material de construção para a graciosa avenida beira-mar, ao longo das praias do Flamengo e Botafogo. Aí os burgueses cariocas passavam as tardes passeando ao longo do paredão restaurado, que um dia abrigara os pobres da terra.
As investidas do desenvolvimento do séc. XX enterraram esta momentânea elegância sob blocos e blocos de apartamentos e escritórios de construção desordenada. Registaram-se reviravoltas, escravos lançados na miséria depois da abolição das colinas sobranceiras ao Rio. O cenário outrora aprazível de mansões e solares tão apreciada por Da. Carlota, tornou-se refúgio dos que nada tèm: os pobres expulsos do centro. aglomerados de barracas cresceram pelos morros, numa manta de retalhos de casebres  e ruas lamacentas. Eram as favelas , as sentinelas do novo Rio. Cercarão progressivamente os subúrbios mais ricos, ameaçando a elite que se criou. (...)
No meio dos arranha-céus e as frágeis casas de tijolo das favelas, permaneceram  vestígios desse período. (...) 
Talvez a mais viva lembrança da longa estada da corte nos trópicos seja a que encontramos nas prateleiras da Biblioteca Nacional, a reencarnação moderna da Biblioteca Real embarcada em Lisboa durante as Guerras Peninsulares . (...) Ao abrir uma caixa infestada pela formiga branca, Marrocos decreveu o seu conteúdo reduzido a vastos tapetes de pó. (...) Continua a ser uma soberba colecção de livros que inclui uma raríssima  Bíblia de Mogúncia em dois volumes datada de 1462, editada em Mainz. (...)
A palma mater de D. João, plantada com grande cerimonial, quando a corte ainda procurava ambientar-se em solo brasileiro, resistiu como um memorial da sua estada no Rio. Ficou de pé, mas secou e morreu.(...)".

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Fábulas

O mais certo é ter-lhe tomado medo. Mas fosse ele por ter chegado a velho, ou porque se cansou dos ruídos do mundo, o homem deitou-lhe as rédeas por cima e afastou-se. Comprou uma horta distante e fez nela uma mansarda debaixo do carvalho. Depois levantou a cerca à sombra da latada e soltou nela as galinhas. E assim viveram um tempo. O homem comia os ovos, e as galinhas catavam as minhocas e o milho que a horta dava.
A certa altura a raposa saltou a vedação. Avançou pelo terreiro, espaventou as galinhas, esganou logo a mais gorda e comeu-a. O homem assistiu àquilo tudo sentado no alpendre e não mexeu uma palha. As galinhas amontoaram-se ao canto, pasmadas pelo terror. E a raposa, aprisionada na cerca, ficou a fazer a digestão. Quando a fome lhe voltava, esgorjava outra galinha. E o homem assistia àquilo tudo sentado no alpendre.
Depois chegou a cegonha, deu duas voltas no ar e fez ninho na copa do carvalho. E em breve engordava os filhos com os sapos-conchos que havia nas redondezas, e eram muitos. Engordavam os filhos da cegonha, benza-os Deus, mas a barriga da raposa dava horas. Um dia começaram a pintar as uvas da parreira. E quanto mais ela pulava, a abocanhá-las, mais a barriga minguava.
Certa tarde passou lá por cima um corvo, trazia um queijo no bico, roubado à janela duma velha que o tinha a secar ao sol. Viu a raposa magrita, deu-lhe duas de conversa e foi-se embora. A raposa desfez-se ali em queixumes, mas o homem assistiu àquilo tudo sentado no alpendre e não mexeu uma palha.
Quando os filhos levantaram voo, foi a cegonha que ouviu os lamentos dela e deixou-se condoer. Fez umas papas do milho que a horta dava, meteu-as numa cabaça e baixou a partilhá-las com a raposa.  Logo ela as estendeu em cima duma laja, onde em tempos as galinhas debicavam o milho. E foi assim que a raposa se desforrou de misérias e a cegonha ficou a ver navios.
Foi então que o homem se levantou e veio abrir a porta do cerrado. Fatigara-se do mundo, quisera afastar-se dele, viera encontrá-lo em casa. E deste modo se dispôs a relatar as muitas fábulas dele.
[Ladrar à lua, a publicar]

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Clássicos e modernos

Com o modernismo a poética clássica soltou-se de fórmulas. É génio estreme. Entre um e a outra, venha o diabo e escolha!
 
Olá guardador de rebanhos
Aí à beira da estrada
Que te diz o vento que passa?
 
"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes
E que passará depois.
E a ti o que te diz?
 
Muita coisa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras coisas.
De memórias e de saudades
E de coisas que nunca foram.
 
Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira
E a mentira está em ti."

domingo, 10 de dezembro de 2017

O tempo e o uso dele

A produtividade deste nosso país é um espanto. Abrem-se os olhos ao horizonte e o que é que se vê? Se houver coisas a resolver, um homem está lixado. De reduzidos que estão, os dias úteis da semana não chegam para nada.
Dia 1 de Dezembro foi feriado e era sexta-feira; dia 8 sexta-feira era; a semana do pai natal é para desembrulhar as prendas; depois vem o ano novo, que calha à segunda-feira.
Quer dizer, se esperas correio urgente, se queres fazer uma operação já atrasada, se estás à espera dum serviço, podes esperar sentado.
Foda-se! - digo eu.

Charneca

Sabes o que é um forte, um fosso, um revelim, uma estacada? Se não fazes ideia, é sempre tempo de aprender.
Nesse tempo ir à Malpartida era um exercício físico e mental. Significava ir a pé. Passava-se por hortas e poços com noras mouras e hortelães activos.
Agora vai-se de carro, ligeirinho, não se vê nada lá fora. Também... não ficou lá nada!

sábado, 9 de dezembro de 2017

Império?!

(...) Beresford (que antes tinha sido feito conde Trancoso!) decidiu acompanhar os batalhões ao Rio de Janeiro e falar com D. João pessoalmente acerca do agravamento da situação em Portugal.
Em cartas privadas falava da sua apreensão acerca do futuro de Portugal. "O estado das coisas é realmente muito crítico", escreveu na véspera da partida para o Rio, e ninguém vê isso melhor do que eu. Não há perspectiva de qualquer tentativa para rectificar os abusos, que estão a afundar o próprio estado, e que deverão no final acabar por destruí-lo. E esse fim não está assim tão longe. Prevejo sérios riscos de agitação provocada pelo descontentamento popular."
[Império à deriva, Patrick Wilcken]