sábado, 29 de abril de 2017

O que se vê!

Cinegética
 
Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha
 
TORAH
 
Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima, acenou a Moisés.
Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente.
Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro.
No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.
Olhou em volta, viu o  seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
- Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.
Alguns foram.
Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.
Depois disso, é o que se vê.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Faunos pelos bosques

Aproveitando-lhe as flores da mocidade, o padre da freguesia cobiçou-lhe as formas, as maneiras, e meteu-lhe os tampos dentro. Mal sabia, o Barzabu, que lhe metia no corpo o diabo à solta. E de facto a cachopa nunca mais teve sossego e passou a dormir mal.
O prior fez dela mestra, arranjou-lhe um diploma... E acabou a dar escola ali para os lados das Caldas.
Eu conheci-a nuns serões da Tágide, uma coisa que existia nas cercanias da Pide. E assustou-me o frenesi com que ela me abria o peito. Mas eu não estava maduro, que as primícias dum varão chegam mais tarde, ainda hoje isso acontece.
Ela é que não desistia, sempre em vão. Na aldeia das Caldas estava à minha espera, era só eu aparecer. Isto enquanto se enroscava em mim, prometendo as mil e uma noites.
Não me dignei aparecer, terá sido o que perdi. Anos depois o marido meteu-lhe no bucho uma ninhada de filhos, até que ela se calou.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Cogitações de caminhada


XI
Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.

[POEMAS de Alberto Caeiro, Ed. Ática, Lisboa]

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Um tantinho de nozes

Angelina tem mais de setenta anos e vive em Dine, que é o lugar onde nasceu. É uma aldeia com fornos de cal, abandonados há muito. E fica atrás do derradeiro monte que limita os fins do mundo. Chega-se lá depois de passar muitas encruzilhadas, e é um lugar tão bonito que nem apetece deixá-lo.
É aqui que Angelina vive, com uma cadela que se chama Luna. Ouve uma pessoa um nome assim e põe-se a fazer perguntas ao instinto.
A seu tempo foi Angelina mãe solteira, duma filha que vive na cidade. Trabalha no comércio, a rapariga, e Angelina está toda contente. Gosta mais de a ver longe neste ofício, do que perto a labutar no campo. Ressalvando a tristeza comum de se encontrarem só de horas em quando. Mas um dia há-de-lhe dar uma netinha.
Angelina vive perto da fontana, ao lado duma represa que também serve de tanque de lavar. E quando chega o Natal faz um presépio ali no jardinzito, para alegria e animação do povo. A casa fica além, debaixo da parreira, e vivem hoje nela a dona e a cadela, conforme antigamente lá viviam a filha e a mãe já velha. Sempre que voltava a casa, Angelina punha-se a fingir a voz duma vizinha, às punhaladas na porta com recados urgentes. - Ó que assim és tontinha minha filha! - E riam ambas no fim.
Ao contrário do resto da aldeia Angelina não anda de preto, porque não é viúva. E por sobre ser uma mulher com ar alegre, tem um espírito aberto, dado e solto. O melhor será chamar-lhe livre, porque o é. Ninguém lho amansou, que é o que sucede as mais das vezes, quando passa por cima das mulheres o rolo compressor da conjugalidade.
À despedida oferece-nos um tantinho de nozes e castanhas. E confessa que, por esse mundo além, só lhe agradava ver a árvore de Natal numa praça do Porto. Dizem na televisão que não há outra maior e ela acredita.

O dia em que nos fomos aos morangos, na quintinha do Rossio ao Sul do Tejo!

O Dornier (DO-27) era uma maravilha da aerodinâmica alemã. O trem era de roda de cauda, com duas pernas à frente (e duas variantes em largura e altura). Manobrá-lo no chão era exercício delicado, sempre a dois passos do cavalo-de-pau.
A asa alta adaptava a superfície alar mediante as várias posições dos flaps, controladas por uma alavanca vertical no centro do cockpit. Porém isso permitia-lhe aterrar e descolar, nas pistas improvisadas do mato, em distâncias inacreditavelmente curtas.
O pior eram os motores de pistões, da BMW e mais tarde da Piaggio. Os engenheiros nunca conseguiram resolver os problemas de arrefecimento a ar. E falava-se de inúmeros casos de aviões plantados nas picadas do sertão. Mas eles eram uma peça fundamental nos transportes ligeiros e nas evacuações das tropas no mato.
Em 1970 eu dava instrução em Tancos (em T6-G, em DO-27 e em Auster) a jovens pilotos milicianos que passavam por ali com formação básica em T-6, antes de irem para África cumprir uma comissão. Partíamos da BA3 e íamos à Comenda treinar aterragens em pista de terra, numa herdade do Pequito Rebelo. Esse figurão franquista achava que o Auster inglês, esse trambolho, é que ia ganhar as guerras de África, montado nas OGMA de Alverca. E a verdade é que, se não as ganhou, também as não perdeu. Mas voltemos à Comenda.
No caminho para o Gavião aproveitámos para treinar emergências de motor, com simulacros de aterragem forçada. A dada altura o hélice parou, e não respondia às tentativas de arranque. Eu apoderei-me dos comandos e procurámos um quintal onde aterrar, entre cepas de vinhas, campos de sobreiros e um pinhal. Lá no meio havia um quintalito, onde parecia possível aterrar a passarola sem danos de maior. E nós lá fomos, planando e descendo, tenteando.
Aproximei-me da final por cima do pinhal, e o quintalinho era em ligeiro declive de que só tarde me dei conta. E o mais grave é que o pinhal tinha 15 metros de altura. Meti-lhe o pé, glissei que nem um cão, mas o ladrão era uma maravilha aerodinâmica e não queria vir para o chão. Lá ao fundo esperavam-nos uns sobreiros seculares.
Meio quintal estava andado e eu não queria lá chegar. Era o momento dos grandes remédios para males enormes! Pranchei a 60 graus, enterrei no chão a ponta duma asa e a perna do mesmo lado a lavrarem o solo. O DO-27 só podia fazer o que fez. Em 20 metros dobrou-se ao meio, partiu os arados das pontas e parou antes dos sobreiros, sem violentar o nariz. Havia histórias de choques frontais em que os apoios do motor cediam e prendiam pelas pernas os tristes aviadores que acabavam assados em labaredas.
Este parou deitado de lado, saímos os três por cima, e fomos dar a uma quintinha onde uns velhotes condoídos nos ofereceram morangos. Havia um telefone dos antigos, e o comandante da base só lamentou que assim tivéssemos perdido o troféu de segurança de voo. Mas nós ficámos consoladinhos com os moranguitos da horta.
Mais tarde os engenheiros de Alverca foram lá num camião buscar o machacaz. Montaram-no numa banca, puseram o motor em marcha, e ele cantou que parecia um tenor. Grande cabrão!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

25


... E há o estado a que isto chegou!

O Roque e a amiga

Estão ambos ali ao cimo da avenida, há um ror de tempo, a quezilar. Nos dias de calor sonham com o lençol do rio, que passa lá ao fundo. Sempre traz uma frescura e lembra-lhes o mar, e o mundo para além dele. Fora disso contentam-se com a baixa pombalina, que lhes dormita aos pés.
Um tem formação romântica e um espírito clássico. Recolhido nas abas do capote, hierático e definitivo, parece um rei de pedra, dos antigos. Bem pode o mundo quebrá-lo mas não o torcerá, porque a razão não deixa.
O outro tem formação clássica e um espírito romântico, e uma alma que não se lhe confina às arcadas do peito. Traça no ombro a capa esvoaçante e avança para o mundo de cabeça erguida, de barbicha à dandy, gaforina ao vento. O génio todo está no sentimento.
Sempre que ali passo bato-lhes à aldraba s empurro a cancela. Para saber quando resolvem a contenda.