quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Patoléus e pancas

Uma coisa e outra costumam ser fatais, quando se juntam. É o caso daquela mãe, que tem a panca dos Mercedes reluzentes, e a do filho, que se pela por BMW's que dão 300 Kms. E serão inadimplentes, um e outro, logo que o barro de que ambos são feitos deixar de gerar suor. 
Mas só terão um sono sossegado e sorridente com latas dessas à porta. Estranha condição!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Poesia


Se fosses pássaro baterias as asas para destruir a armadilha
Se fosses insecto deixarias círculos apenas ao redor da luz
Se fosses abelha farias zumbir a revolta
Mas és voo pela sombra
Se fosses formiga carregarias a ordem, armazenarias a fadiga
Se fosses flor polinizarias a terra
Serias coroa incorruptível
Se fosses flor através da estações

(Poesia, Daniel Faria, Ed. Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2006)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Tripas falantes

A espécie de prof. Karamba, que é o Francisco Louçã, também lê o futuro nas tripas dos frangos das arcas do Pingo Doce!
No tempo do PEC 4, descobriu que recusar o Pec era já começar a sair da crise.
Desta vez prevê apenas que a Mariana Mortágua há-de ser ministra das Finanças. Não diz como, nem diz quando. Nem sequer se ela também vai usar dois balões de hélio ao peito. 
Bardamerda para esta gente!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Textos de luxo, que o tempo não oxida

Fica aí mais um excerto:
«(...) ordeno que a todos os corregedores do reino se mande que reúnam e enviem para Mafra quantos operários se encontrarem nas suas jurisdições, sejam eles carpinteiros, pedreiros ou braçais, retirando-os, ainda que por violência, dos seus mesteres, e que sob nenhum pretexto os deixem ficar, não lhes valendo considerações de família, dependência ou anterior obrigação, porque nada está acima da vontade real, salvo a vontade divina, e a esta ninguém poderá invocar, que o fará em vão, porque precisamente para serviço dela se ordena esta providência, tenho dito.
Ludovice acenou a cabeça gravemente, como quem acabasse de verificar a regularidade duma reacção química, os secretários escrituraram velocíssimas notas, os camaristas entreolharam-se e sorriram, isto é que é um rei, o doutor Leandro de Melo estava a salvo desta nova obrigação porque na sua comarca já não havia quem trabalhasse em ofícios que não servissem o convento, por via directa ou indirecta.
Foram as ordens, vieram os homens. De sua própria vontade alguns, aliciados pela promessa de bom salário, por gosto de aventura outros, por desprendimento de afectos também, à força quase todos. Deitava-se o pregão nas praças, e, sendo escasso o número de voluntários, ia o corregedor pelas ruas, acompanhado dos quadrilheiros, entrava nas casas, empurrava os cancelos dos quintais, saía ao campo a ver onde se escondiam os relapsos, ao fim do dia juntava dez, vinte, trinta homens, e quando eram mais que os carcereiros atavam-nos com cordas, variando o modo, ora presos pela cintura uns aos outros, ora com improvisada pescoceira, ora ligados pelos tornozelos, como galés ou escravos. Em todos os lugares se repetia a cena, Por ordem de sua majestade vais trabalhar na obra do convento de Mafra, e se o corregedor era zeloso, tanto fazia que estivesse o requisitado na força da vida como já lhe escorregasse o rabo da tripeça, ou pouco mais fosse que menino. (...)
Corriam as mulheres, choravam, e as crianças acresciam o alarido, era como se andassem os corregedores a prender para a tropa ou para a Índia. Reunidos na praça de Celorico da Beira, ou de Tomar, ou em Leiria, em Vila Pouca ou Vila Muita, na aldeia sem mais nome que saberem-no os moradores de lá, nas terras da raia ou da borda do mar, ao redor dos pelourinhos (...)».
(Memorial do Convento, José Saramago, Ed. Caminho, Lisboa 1982)

domingo, 15 de janeiro de 2017

sábado, 14 de janeiro de 2017

Mercedes Sosa

Quando a voz mais funda dos povos se faz ouvir...

Lev Tolstoi

Prefácio:
Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte?
Lukacs, por exemplo, defendia a segunda hipótese, contrapondo o Llanto por Ignacio Sanchez Mexias, de Federico Garcia Lorca, como o grande texto acerca do fim. Embora eu concorde com parte dos argumentos de uns e outros é um tipo de discussão que só academicamente me interessa: a morte de Ivan Ilitch é ambas as coisas e transcende tudo isso, para se tornar o retrato implacável da nossa condição: não há sentimento que nele não figure, não há emoção que não esteja presente. Tudo o que somos se acha em poucas páginas, escrito de uma forma magistral.
Li-as, maravilhado, umas vinte ou trinta vezes, continuarei a lê-las, maravilhado, até ao fim dos meus dias. Maravilhado, exaltado, comovido, a perguntar-me como é que ele conseguiu. E conseguiu. Reparem no que Tolstoi faz com as palavras e como nos retrata, de corpo inteiro, no mais íntimo de nós mesmos.
António Lobo Antunes
Há palavras tão perfeitas, tão exactas, que temos que dar a volta ao mundo antes de as poder ouvir!